Domingo, 4 de Dezembro de 2005

O pau e a cenoura (ou o Titanic II)

 


Costuma dizer-se que um bom gestor é aquele que dá aos seus subordinados doses equilibradas de “pau” e de “cenoura”.


Se essa máxima estiver correcta então a actual ministra da Educação deve ser a pior gestora das últimas décadas, batendo aos pontos qualquer dos últimos antecessores, já de si, todos eles, bastante fracos. Senão vejamos o que esta senhora andou a fazer nos últimos meses:


- começou o seu consulado com uma requisição geral dos professores, impedindo-os de, na prática, exercerem um dos seus direitos constitucionais: o direito à greve - PAU


- congelou-lhes as subidas de escalão – PAU(2)


- prorrogou-lhes a idade da reforma para os 65 anos – PAU(3)


- obrigou-os a dar aulas de substituição, que na prática se resumem a ocupação de tempos livres e “baby-sitting” – PAU(4)


- obrigou-os a ficarem na escola, diariamente, durante várias horas a mais para darem apoio em gabinetes de disciplina (?), aulas de apoio, etc, etc, tirando-lhes o tempo de preparação de aulas, condição indispensável para aulas bem sucedidas – PAU(5)


- a última que vem a caminho é “prender” os professores durante 3 ou 4 anos no mesmo local, impedindo-os de concorrer para se aproximarem do seu local de residência – PAU(6)


Com tanto “pau” ao mesmo tempo, e sem uma única “cenourinha” para amaciar o bico, é caso para perguntar como é que os professores têm resistido tanto tempo e de modo tão pacifico? Estamos mesmo num país de brandos costumes ...


E o mais irónico disto tudo é que a Sra. ministra, muito habilmente, e com a prestável ajuda de alguma comunicação social, conseguiu fazer passar a imagem de que os professores são todos uns calaceiros, que não querem é trabalhar...


As famosas aulas de substituição (agora chamam-se "actividades" de substituição, porque se se chamassem aulas, o ministério tinha que as pagar!) devem ser, na minha opinião, uma das reformas mais estapafúrdias de todas as que foram inventadas por aquele bendito ministério, senão vejamos:


- nessas “actividades” não se aprende rigorosamente nada, pois um professor de educação física pode ir substituir, por exemplo, um de matemática, e vice-versa;


- as “actividades” são ao gosto dos alunos, que podem desde brincar com o telemóvel até jogar ás cartas, passando por ver filmes de “kung-fu” ou, se lhe apetecer, também podem lembrar-se de dar cabo do juízo do professor(a) substituto(a);


- este professor, com a cabeça em água, depois de dar as suas aulas e de todas as "actividades" que o ministério se lembrou para "prender" os professores nas escolas, vai provavelmente faltar a algumas aulas para recuperar ou, no pior cenário, vai meter baixa médica, dando assim origem a mais substituições improdutivas que, por sua vez vão dar cabo de mais alguns professores e por aí fora;


- no limite, os alunos vão ter grande parte do tempo lectivo ocupado com “actividades” de substituição e não com as disciplinas que deveriam ter, dadas como deve ser;


- e tudo isto, dizem, para impedir que os alunos cujo professor faltou, perturbem os que estão em aulas (esta só mesmo para rir!).


Por isso acho que, se a ministra da Educação tiver uma réstia de bom senso devia acabar imediatamente com as “actividades” de substituição e outras afins, ou então, atribuí-las a quem não tem horário lectivo (parece que ainda há bastantes professores nesta situação!), porque desta forma, só vai conseguir em pouco tempo dar cabo do rendimento de grande parte dos professores e assim, prejudicar ainda mais os alunos, ao contrário do que era pretendido.


Se a estas novidades, somarmos as malfeitorias que se acumularam aos longos dos anos devidos às “reformas” de “gestores” que, como esta ministra, que se julgavam uns iluminados, temos o actual panorama catastrófico que está à vista e é do conhecimento generalizado:


- alunos altamente indisciplinados, mal-educados, desmotivados e/ou indiferentes, que têm o pior aproveitamento escolar da Europa, proporcionalmente ao dinheiro que é gasto para os ensinar;


- professores completamente desmotivados, desmoralizados e à beira de um ataque de nervos, obrigados a fazerem de tudo e mais alguma coisa, desde trabalho de secretaria até “baby-sitting”, menos o que deveriam fazer acima de tudo - dar boas aulas e ensinar bem os alunos;


- pais que, em muitos casos, são tão indisciplinados ou mal-educados como os filhos e que exorbitam grandemente o seu papel de encarregados de educação, procurando influenciar a escola e o ministério de modo a que a escola seja da maneira que eles julgam que deve ser ou que lhes dá jeito que seja;


- conselhos directivos que se limitam a servir "pombos correio" das ordens do ministério ou são “mais papistas que o Papa”, esquecendo-se que estão a lidar com os seus próprios colegas de profissão;


- ministério da Educação que julga que tem a missão patriótica de fazer uma reforma do ensino sempre que muda o ministro, quando deveria é estar quieto e deixar-se de experiências, pois nisto da Educação já está tudo inventado e o que o ensino precisa é de disciplina, estabilidade, paz e de menos “pedagogices” baratas.


A primeira e mais essencial reforma a fazer era dar aos conselhos directivos e aos professores poderes e autonomia para punir os alunos. E quando digo punir, não digo bater nem exercer violência, física ou psicológica, digo antes mostrar ao aluno que é repetidamente indisciplinado ou mal educado e aos seus pais, quais são as alternativas: ou o aluno muda de vida e deixa aprender quem quer aprender ou, se não quiser mudar, o melhor é ir fazer outra coisa qualquer:


- porque é que tudo se perdoa a um aluno que não quer aprender e que, repetidamente, a única coisa que faz é perturbar a aula com a sua indisciplina e falta de educação?


- não estará esse aluno a prejudicar o rendimento das outras dezenas que querem realmente aprender e não podem, apesar de terem esse direito?


- porque é que as associações de pais e sindicatos de professores não se insurgem contra esta chaga que está a roubar o futuro ao nosso país e aos nossos jovens e desmotiva e desgasta os professores?


- porque é que o ministério sempre contemporizou com esta situação sabendo perfeitamente que ela existe?


Porquê? É muito simples... Porque não é política nem “pedagogicamente” correcto!


Dizem os "pedagogos":«Não se pode reprimir os alunos, coitadinhos, porque eles têm que ser ensinados a bem, com meiguice, brandura e paciência, porque eles são novos e ingénuos ...» Pois, e se neste processo os pobres anjinhos fizerem “gato e sapato” dos professores, esses malvados, não faz mal, até porque eles são pagos para isso, para aturarem as más educações e desrespeitos dos filhos dos outros e só têm é que ficar caladinhos, até porque já estão habituados a levar com o PAU!


Se não se começar por aqui, podem ter a certeza de uma coisa: por mais dinheiro, “paus” e “cenouras” que deitem para o sistema, ele vai continuar a afundar-se porque, como toda a gente sabe, o conhecimento exige muita disciplina (e esforço) logo, a falta de disciplina, individual e colectiva, é a negação do próprio ensino e do conhecimento.


P.S. O autor deste texto não é professor ... mas já foi aluno.


 


publicado por siX às 22:59
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5 comentários:
De Anónimo a 5 de Dezembro de 2005 às 22:02
afinal sempre está vivo... ufa!!!siX
</a>
(mailto:vileiro@gmail.com)


De Anónimo a 5 de Dezembro de 2005 às 14:21
Obrigado, Flavia. É bom estar de volta. Um abraço.berlim
</a>
(mailto:murodeberlim@sapo.pt)


De Anónimo a 5 de Dezembro de 2005 às 01:08
"trágica" realidade...é tão ruim que as professoras estão até a escrever em português errado!!! hehehe :)Flavia Altmayer
(http://Brasil)
(mailto:flavia_altmayer@sapo.pt)


De Anónimo a 5 de Dezembro de 2005 às 00:00
Gostei, Berlim! No Brasil temos o mesmo problema, sucedem-se Ministérios, mas sempre muito "pau" aos professores...triste e trájica realidade! Já sentíamos sua falta por aqui, estávamos nos preparando para um "Resgate na África", mas você voltou, ufa! abraço da Tribo! :) Flavia Altmayer
(http://Brasil)
(mailto:flavia_altmayer@sapo.pt)


De tv a 24 de Novembro de 2010 às 23:20
Estou a ver na televisao informacao sobre a greve. O elevado grau de adesão á greve geral verificado mostra claramente que a solução imposta pelo Governo PS é repudiada pela maioria dos portugueses. Sócrates mentirá se disser que o bom povo português aceitou os sacrifícios que lhe foram pedidos.


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