Sexta-feira, 9 de Setembro de 2005

Pescadores Artesanais

 


pescador artesanal estuario da lagoa.jpg


 


“A pesca é uma profissão artística!”


Exactamente assim referiu-se um pescador artesanal da região do estuário da Lagoa dos Patos (Rio Grande do Sul – Brasil) sobre sua actividade, quando entrevistado em fevereiro de 1998. O tema era “o gosto pela profissão”; as justificativas foram as mais variadas, mas todas, sem excepção, foram positivas.


Sim, os pescadores GOSTAM do que fazem.


 


Breve Histórico


A abundância dos recursos naturais na região propiciou o desenvolvimento da pesca artesanal como actividade económica de relevância, constituindo-se em uma prática tradicional no estuário da Lagoa dos Patos, remontando ao período da colonização portuguesa, no século XVIII. Esta produção baseada na unidade familiar, que atendia apenas ao abastecimento do mercado local, seria repentinamente alterada, no final do século XIX, com a vinda de imigrantes portugueses principalmente de Póvoa de Varzim.


À semelhança de outros locais da costa do Brasil, os pescadores poveiros que se instalaram no estuário da Lagoa dos Patos traziam consigo toda uma tradição diferenciada que incluía novas técnicas e nova forma de organização, as quais ocasionaram mudanças significativas na pesca no estuário.


Ao longo do tempo, acompanha-se uma concentração e uma intensidade cada vez maior da actividade pesqueira artesanal sobre os estoques – seja para suprir a demanda do parque industrial instalado no final da década de 60 do século XX, seja pela melhoria e eficiência das técnicas de pesca (redes, embarcação, motorização, etc.).


 


Esboço da Crise


Como em outros locais no mundo, o aumento do esforço teve como consequência a sobrepesca, e observa-se, desde o início da década de 80, um declínio das capturas por espécie na região do estuário da Lagoa dos Patos, com algumas espécies (como o bagre, Netuna barba) praticamente desaparecendo.


Outros factores somados à sobrepesca no estuário, como a poluição na lagoa e o aumento do esforço da pesca industrial, na zona costeira adjacente, também contribuíram para diminuir o volume de pescado, agravando o quadro de dificuldades enfrentadas pelos pescadores artesanais.


A crise reflecte-se na forma de vida dos pescadores, colocando em risco a continuidade da cultura.


 


O trabalho


Motivada pela crise pesqueira, desenvolvi um trabalho sobre a percepção e acção dos pescadores no ecossistema do qual participam, como forma de fornecer subsídios para um Programa de Educação Ambiental continuada, formal e informal. Vários aspectos foram enfocados: naturais, sociais, políticos, históricos e económicos.


Alguns dos resultados obtidos nessa pesquisa serão apresentados no III Congreso Internacional de Educación Ambiental, a realizar-se em Granada, na Espanha, ao final deste mês de setembro de 2005.


 


Pescadores luso-brasileiros


Falar dos resultados da pesquisa seria demasiado extenso (!), mas saibam que quando lá estiver apresentando o trabalho (uma pequena contribuição) sobre esses profissionais da pesca aqui da nossa região, no sul do Brasil, estarei, de certa forma, referindo-me também aos da vossa região, no norte de Portugal. Em vários pescadores que entrevistei vi um pouco dos poveiros, até porque alguns são mesmo descendentes directos.


 Assim, estaremos todos juntos no Congresso em Espanha: Os que ainda pescam e os que iniciaram o processo; meu avô, os portugueses com quem pescou, os brasileiros que com eles pescaram, e assim sucessivamente, em uma corrente contínua, até chegar na pesquisadora que vos fala, a qual guarda esperança que o equilíbrio do ecossistema seja recuperado, que as condições de pesca melhorem, que a actividade sobreviva...enfim, que a cultura não morra


 


 


publicado por siX às 04:05
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8 comentários:
De Anónimo a 18 de Setembro de 2005 às 15:44
Não há o que agradecer, Caro Pio. É um prazer trocar idéias com vc aqui no QD! abraço!:)Flavia Altmayer
(http://Brasil)
(mailto:flaltmayer@brturbo.com.br)


De Anónimo a 17 de Setembro de 2005 às 19:14
Cara Flávia, obrigado por partilhares connosco os teus conhecimentos!

De facto este assunto daria para vários e interessantes artigos.... Pio XXI
</a>
(mailto:xpto@mail.pt)


De Anónimo a 15 de Setembro de 2005 às 18:41
Caro Pio, te posso falar da experiência que tenho por aqui, com a pesquisa sobre os pescadores brasileiros, mais especificamente os da minha região (sul do Brasil). Bem, o setor pesqueiro artesanal sempre foi deixado de lado pelos sucessivos governos ao longo da história do Brasil. Na década de 20 (do Sec. XX) a Marinha Brasileira criou as chamadas "Colônias de Pesca", ao longo da costa do Brasil. Essas colônias, longe de serem órgãos representativos da classe, não passaram de entidades assistencialistas e, por vezes, "controladoras" da atividade dos pescadores, nunca com real suporte ou defesa dos interesses da categoria. Isso foi recorrente até meados da década de 80, quando em algumas regiões esse quadro começou a ser alterado através da participação dos pescadores e de lideranças interessadas em alguma mudança (melhoria das condições de vida e trabalho dos pescadores). Tive oportunidade de pesquisar os registros de pescadores em um dos arquivos dê uma das Colônias de Pesca aqui da região. Fiquei um mês, olhando ficha por ficha: posso te dizer, é uma confusão de origens, registros incompletos e não atualizados que fica difícil ter-se uma idéia real dos movimentos regionais e extra-regioanis das populações, migrações e mudanças, sem que se lance mão de outros documentos e informações, enfim de outras fontes. Assim que, se o mesmo se dá (ou deu) por aí, fica fácil entender as confusões, e isso reflete, talvez (hipótese para pesquisa), uma das características do setor pesqueiro artesanal em geral, relacionado ao fato de estarem sempre à margem da sociedade (por descaso socio-econômico, apesar da contribuição do setor para as economias locais e nacionais), a falta de organização e articulação da categoria e outros elementos ligados ao 'modo de ser' pesqueiro...que aí daria um outro texto (ups!)... Como vês, adoro o assunto! abraço da Flávia!:)Flavia Altmayer
(http://Brasil)
(mailto:flaltmayer@brturbo.com.br)


De Anónimo a 14 de Setembro de 2005 às 15:00
é um facto que o "jornalismo" e o "sistema" da altura subalternizaram o pescador vila-condense ou caxineiro em detrimento dos "poveiros".

O facto desta adulteração ter sido exportada para o Brasil, deve-se à "Casa dos Poveiros" no Rio de Janeiro!

Mas curioso, é como foi possivel tal adulteração ter acontecido em Portugal com a cumplicidade do poder da altura vigente em Vila do Conde...Pio XXI
</a>
(mailto:xpto@mail.pt)


De Anónimo a 13 de Setembro de 2005 às 18:41
Quando chegavam ao Brasil, muito provavelmente, os pescadores portugueses dessa região entravam todos como poveiros, ou "da região de Póvoa de Varzim", assim que, vilacondenses e etc., ficavam todos com a mesma origem ("genérica", digamos assim) de "poveiros". Bem, se fosse fazer uma pesquisa sobre os "pescadores poveiros" especificamente, por certo encontraria muitos de Vila do Conde e arredores, caso a documentação permitisse, porque, às vezes, não há registro documental (somente história oral). Mas penso que isso não menospreza a cultura piscatória das localidades (de ambas e regional), que devem ter uma mesma tradição de pesca, pela proximidade e trocas constantes (inclusive na construção das embarcações, como vc observou), embora, claro, sempre guardem as suas especificidades (em vocabulário, denominações, períodos de pesca, festas religiosas, etc.). Entendo o seu comentário e, certamente, em seu lugar também levantaria a questão, caro Pio. Grata pela observação. Um abraço! :)Flavia Altmayer
(http://Brasil)
(mailto:flavialima_70@hotmail.com)


De Anónimo a 13 de Setembro de 2005 às 16:38
cara Flávia, refere no seu texto "pescadores poveiros". Permita-me as seguintes observações:
as qualidades naturais (mar e rio) e as tradições fazem de V. do Conde a maior comunidade piscatória de Portugal( Caxinas, Poça da Barca, Vila do Conde e Vila Chã). Vila do Conde esteve ligada ao mar desde os primórdios da aventura dos descobrimentos (sec. XV e XVI).
Foram inúmeros os navegadores, que se evidenciaram nesta aventura. Foram muitas as naus e as caravelas construidas nos estaleiros de V. do Conde... etc!
No sec. XX, V. do Conde ilustres capitães se evidenciaram quer na marinha mercante, bacalhau etc.

Quanto à chamada pesca artesanal, o facto de V. do Conde nunca ter conseguida um porto de pesca (ao contrário da Póvoa), obrigou muitos dos pescadores vilacondenses e caxineiros a utilizarem o porto de Matosinhos e da Póvoa.

Ainda hoje o número de pescadores Vila-condenses é infinitamente maior que o da comunidade poveira.

Depois, houve adulteração de informações, tais como dizer que o Cego do Maio ainda que natural de Vila do Conde é afinal poveiro ...!

Mais coisas lhe poderia referir, mas a verdade da história deverá ser repostaq ainda ue com um pouco de bairrismo! Pio XXI
</a>
(mailto:xpto@mail.pt)


De Anónimo a 9 de Setembro de 2005 às 19:35
Ele vai de férias. Vai ficar alguém a controlar o blog. O segundo nome da lista de Kafka... é o Luis Ferraz.Garganta funda
</a>
(mailto:franzkaf@gmail.com)


De Anónimo a 9 de Setembro de 2005 às 19:35
Ele vai de férias. Vai ficar alguém a controlar o blog. O segundo nome da lista de Kafka... é o Luis Ferraz.Garganta funda
</a>
(mailto:franzkaf@gmail.com)


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