Quarta-feira, 19 de Setembro de 2007

Calixto e a virtude que dá

 

 

 

 

A Dor tinha-o abandonado e Calixto comemorava. Finalmente estava livre da peçonha que o havia amedrontado uma grande parte da sua vida insignificante. Calixto elevou uma vez mais o copo transbordante do odorífero bagaço e, de olhos fechados, engoliu-o em um único trago. Com o copo na mão, imóvel, Calixto sentiu o líquido a escorrer pelo esófago, queimando-lhe as entranhas, as vísceras reagindo e reenviando o seu protesto na forma de um nauseabundo arroto. O gajo do balcão recuou, aturdido e enojado, sob o olhar sanguinolento de Calixto.

- Outro – disse, apontando com o dedo o copo vazio.

- Assim não duras muito, Velho – replicou o gajo ao mesmo tempo que lho enchia, fazendo-o transbordar.

 

 

 

Calixto nada disse. Agarrou no copo e virou-lhe as costas. Enquanto bebericava, o seu olhar pousou num casal sentado à sua frente. O tipo com cara de lontra falava e a gaja à sua frente olhava-o fascinada. As narinas palpitantes, a boca entreaberta, a respiração ofegante indiciavam uma página em branco que a gaja procurava preencher, mas que o tipo com cara de lontra parecia não ver ou não querer compreender. “Mais um roto”, pensou. Em tempos passados, Calixto fora bem-falante. Também ele impressionara o lado feminino com prosas poéticas sussurradas ao ouvido e experimentara o prazer da conquista do corpo, a entrega da alma através do uso da Palavra.

 

 

O cara de lontra continuava a falar, debitando palavras para um ponto fixo numa linha de terra imaginada por si, num monólogo monocórdico interminável, indiferente à súplica crescente no olhar da gaja. Calixto observou-a. Algo nela o incomodava, sem descortinar a razão para tal. Entre dois tragos, lembrou-se! Num passado distante, quando o ideal era o pão que alimentava a alma, a sua sede de conhecimento e admiração pela obra de Ticiano tinha-o arrastado ao Museu do Hermitage em S. Petersburgo. Ao subir a escadaria October do Palácio de Inverno de Catarina, dera de caras com a estátua da Imperatriz Alexandra Fiodorovna, o rosto triste inclinado para a mão direita, o braço elevado apoiado nas costas da cadeira, repousando o esquerdo graciosamente no regaço.

 

 

Calixto estacara, abalado pela força inexplicável que o assaltava sempre que se encontrava perante o Belo e não raras vezes lhe arrancava uma lágrima. Essa mesma lágrima que agora corria pelo rosto de Calixto e o impelira, cambaleante, por entre as mesas ocupadas por gajos e gajas com o nariz enterrado nos portáteis, rindo-se como parvos para os ecrãs.

- Eu não aceito! – berrou. – Eu não aceito! Eu não aceito!

 

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publicado por siX às 00:15
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2 comentários:
De seforis a 27 de Setembro de 2007 às 11:45
Quase não me atrevo a comentar :-) mas, depois de ler de trás para a frente, neste caso particular, de cima para baixo :-) arrisco dizer: aceito. Claro que aceito!


De siX a 30 de Setembro de 2007 às 18:50
:) :)


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